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MIRA
Metodologia de Impacto e Resultado Assistencial

Estrutura para projetar e mensurar o impacto financeiro de intervenções em saúde — de forma que a controladoria consiga verificar sem precisar acreditar em ninguém. Versão 1.1, agosto de 2026.

O problema

Custo evitado é dinheiro que nunca apareceu

Toda operadora roda programa de gerenciamento, rastreamento, navegação de caso. Todas afirmam que economizam. Praticamente nenhuma consegue defender o número quando o conselho pergunta como sabe.

Isso não é preguiça — é dificuldade metodológica real. Custo evitado é um contrafactual, e a controladoria trabalha com valor realizado, conciliável e auditável. Ela rejeita, com razão, a forma como esse número costuma ser apresentado.

Pior: quando a economia prometida não aparece no resultado, o programa inteiro perde crédito — inclusive a parte que funciona.

Princípio estruturante

Declara-se antes. Verifica-se depois.

Projeção e mensuração não são estudos distintos. São dois momentos do mesmo protocolo: os parâmetros que a projeção assume tornam-se, obrigatoriamente, as metas que a mensuração vai verificar.

Auditabilidade

A controladoria passa a ter contra o que conferir o resultado, em vez de receber um número isolado.

Integridade

A expectativa não pode ser reescrita depois que o resultado é conhecido.

Aprendizado

Cada ciclo calibra os parâmetros do seguinte, e a organização melhora a própria capacidade de projetar.

Uma projeção sem verificação posterior programada não está conforme à MIRA. Uma mensuração sem protocolo prévio, tampouco.

Percurso

Cinco etapas

Um caminho curto e explícito. Em cada etapa você sabe o que está sendo feito e o que ainda não pode ser afirmado.

#EtapaO que acontece
01EnquadramentoCadeia causal de cinco elos, tipo de intervenção, contrafactual nomeável em uma frase e desfechos de segurança declarados.
02EstimativaAs quatro contas, ano a ano, com todo parâmetro declarando origem e a curva de retenção ponderando o benefício.
03MensuraçãoO degrau de desenho mais alto que os dados permitirem, com exclusão da janela de elegibilidade e análise por intenção de tratar.
04AsserçãoO verbo empregado corresponde ao desenho que o sustenta. Nada acima disso é autorizado.
05GovernançaProtocolo datado em instância independente, conciliação contábil e reprodutibilidade por terceiro.
Decomposição

As quatro contas

O impacto de qualquer intervenção decompõe-se em quatro parcelas. Todas são obrigatórias; parcela ausente exige justificativa escrita, não silêncio.

Impacto líquido (t)  =  custo da intervenção  +  custo induzido  +  custo revelado    custo evitado

Custo da intervenção

O que se paga para executar: insumos, exames, equipe, tecnologia — e a receita renunciada, quando a intervenção elimina uma fonte de recebimento.

Erro comum: omitir a receita renunciada. Ela é imediata, real e frequentemente esquecida.

Custo induzido

A cascata disparada a jusante: investigação adicional, falso-positivo, efeito adverso, seguimento, complicação.

Erro comum: assumir que não existe. Toda intervenção tem cascata; quem não a modelou, não a procurou.

Custo revelado

Demanda que já existia e não estava sendo atendida, mais os casos que a intervenção antecipa ou identifica em excesso.

Erro comum: tratar como despesa adiada. É despesa nova e legítima, e não desaparece do orçamento.

Custo evitado

Eventos prevenidos ou deslocados para um estado de menor custo. É a única parcela negativa.

Erro comum: ser a única parcela modelada. É também a mais tardia e a mais incerta das quatro.
Asserção

O desenho define o verbo

Utiliza-se sempre o degrau mais alto que os dados e a operação permitirem — e ele é declarado, porque é ele que define o que se pode afirmar. Escolher verbo acima do desenho é a forma mais comum e mais irreversível de perder credibilidade técnica.

DegrauDesenhoVerbo autorizadoAplicabilidade
1Implantação escalonada com ordem sorteadareduziuA implantação ainda não ocorreu e será feita em fases.
2Comparador pareado com diferença-em-diferençasassociou-se aExistem elegíveis não alcançados, com dados no período anterior.
3Descontinuidade de regressãoassociou-se aA elegibilidade é definida por ponto de corte em variável contínua.
4Controle sintético ou série temporal interrompidaé compatível comA intervenção alcançou toda a população; não há comparador individual.
5Pré-pós ajustadoobservou-seNenhuma das anteriores é viável. Resultado rotulado como exploratório.

O degrau 1 só existe antes da implantação. Sempre que houver decisão de implantar em fases — o que é o caso na maioria das vezes —, sortear a ordem converte a implantação em experimento sem custo adicional. Essa janela não reabre.

Regra de decisão

“Não demonstrado” é um resultado legítimo

Quando o intervalo de confiança do efeito estimado contém zero, a conclusão é “não demonstrado”. Nunca “economia pequena”, “tendência favorável” ou formulação equivalente. A regra é escrita no protocolo, antes de qualquer resultado ser observado.

Um resultado não demonstrado informa que a intervenção precisa de mais tempo, de mais população ou de melhor desenho — e preserva a credibilidade de todas as demais afirmações do relatório.

A regra financeira é subordinada à de segurança. Deterioração relevante de desfecho de segurança impede conclusão favorável, qualquer que seja o resultado econômico apurado.

Conformidade

As quinze regras

O que uma análise precisa satisfazer para estar conforme à MIRA. A coluna de verificação distingue as regras aferíveis de forma objetiva daquelas que exigem julgamento de um revisor — estas nunca ficam conformes automaticamente.

#RegraEtapaVerificação
R1A cadeia causal completa é escrita antes de qualquer númeroEnquadramentojulgamento
R2Toda economia alegada tem contrafactual nomeável em uma fraseEnquadramentoobjetiva
R3Projeção e mensuração compartilham o mesmo protocolo e os mesmos parâmetrosEnquadramentoobjetiva
R4As quatro contas são obrigatórias, e a sobreposição com intervenções ativas é declaradaEstimativaobjetiva
R5O efeito médio não é aplicado à população marginalEstimativajulgamento
R6Resultado ano a ano, líquido, e estratificado por vulnerabilidade quando aplicávelEstimativaobjetiva
R7Todo parâmetro declara origem em grau A, B ou CEstimativaobjetiva
R8Utiliza-se o degrau de desenho mais alto disponível, e ele é declaradoMensuraçãojulgamento
R9A janela de elegibilidade é excluída da janela de desfechoMensuraçãoobjetiva
R10A análise principal é por intenção de tratarMensuraçãoobjetiva
R11Intervalo que contém zero produz conclusão de “não demonstrado”Mensuraçãoobjetiva
R12O verbo empregado corresponde ao degrau de desenho utilizadoAsserçãoobjetiva
R13Protocolo datado em instância independente, conciliação contábil e reprodutibilidadeGovernançaobjetiva
R14Desfecho de segurança nomeado e monitorado, com precedência sobre o resultado financeiroEnquadramentojulgamento
R15Curva de retenção declarada e custo evitado ponderado por elaEstimativaobjetiva
Por que importa aqui

Duas regras que nenhum framework importado tem

Modelos de avaliação econômica vindos de sistemas públicos assumem que a população não muda de pagador. Na saúde suplementar brasileira, muda.

R15 — Quem captura o benefício

Se o beneficiário médio permanece quatro anos na carteira, economia que chega no ano sete é economia do concorrente. Essa é a razão estrutural pela qual operadoras subinvestem em prevenção — e a MIRA obriga a declarar a curva de permanência e ponderar o custo evitado por ela.

R4 — Dupla contagem entre programas

Gerenciamento de crônicos e navegação oncológica podem reivindicar a mesma internação evitada. Cada relatório fecha isoladamente; somados, prometem uma economia que não existe. A MIRA obriga a declarar a sobreposição populacional e resolver a atribuição.

Governança e proteção de dados

O mesmo desenho resolve auditoria e LGPD

  • Pseudonimização na origemA identificação do beneficiário é substituída por chave estável antes da entrega. A análise requer vínculo longitudinal, não identidade.
  • Processamento no seu ambienteO dado pesado não sai. Reduz a exposição de forma substancial e amplia a confiança da auditoria sobre o processo.
  • Minimização ancorada no protocoloSolicitam-se apenas as variáveis que o protocolo pré-especificado justifica, e cada uma é justificável por escrito.
  • Conciliação com o realizadoTodo valor utilizado é rastreável até o pagamento correspondente. A metade estimada permanece segregada do resultado contábil.

O limite declarado

Como o processamento acontece no ambiente da controladora, o método certifica o processo — protocolo datado, recorte identificado, consulta versionada, reprodutibilidade por terceiro —, e não a veracidade do dado de origem.

Está escrito aqui por honestidade, e porque certificação de processo é o que auditoria compra de qualquer forma.

Próximo passo

A MIRA aplicada à sua operação

A primeira conversa é diagnóstica e sem custo: entendemos a decisão que você precisa tomar e avaliamos, com honestidade, se as bases disponíveis sustentam uma resposta.